11/12/2007

João Fatalista (versão blogante - parte I)

João Fatalista era um homem azedo.

Não se sabia porquê.
Sempre fora assim.

A sua desmedida cultura, associada a uma frígida disciplina dos sentidos, permitia-lhe dissertar com sagacidade e destreza sobre a trajectória incerta dum electrão, a sexualidade dos elefantes por altura das monções ou Nietzsche e a estrutura do seu pensamento se tivesse casado.

Era um perorador nato, empolgante, senhor de um léxico capaz de baixar a auto-estima dos melhores dicionários clássicos, manuais de física quântica e enciclopédias de filosofia védica, por atacado.

Durante as circunvoluções das suas intervenções profissionais e sociais, costumava arrancar olés interiores aos discentes e assistentes com a facilidade com que um grande toureiro torneia, como se fossem rosas, os cornos de um touro bravo. No final, recolhia as orelhas ainda coladas às suas palavras e acrescentava à obesa colecção os inúmeros rabos que não hesitavam em dar-se, num salto, para o ovacionar em triunfo.

Há muitos anos que os oráculos da ciência política profetizavam que ele viria a ser, cedo ou tarde, o ministro por quem a república escrevera uma ode ainda por cantar e uma epopeia até agora órfã de herói. Garantiam mesmo que a sua obra seria o sólido galho de partida duma ave predestinada a esplendorosas migrações e que desceria depois onde fosse preciso, como um avatar planetário, para gratidão dos povos.

É verdade que costumavam divergir, aqui e ali, no nome das pastas que apontavam como aquecimento prévio para a sua ascensão plena. Também é um facto que reduziram a pouco mais de meia dúzia os balões de ar quente que João Fatalista – um cérebro global – poderia vir a usar na sua viagem.

Mas não era isso, porém, que causava a falha contínua de todas as suas predições. Mês após ano. O motivo, mais frio e simples, era outro: nunca o chamavam. Dos senhores das torres de controlo do poder jamais chegava um convite. Ano após mês.

Se nos aeroportos da política era assim, nos relvados do saber não era muito diferente: a Sorbonne, Oxford e Harvard já o insinuavam há várias temporadas mas ele, por mistério ou fatalidade, acabava sempre a jogar em casa.

Os seus pressagiados voos até já eram altos - muitas vezes quase sentia o respirar da glória nas alturas - mas acabavam sempre num flácido planar. Jamais adquiriam a excitação final, o impulso que lhe permitiria ejacular-se da gravidade e deixar para trás os efémeros holofotes dos mortais para que, já aliviado do peso do crânio, pudesse expandir a sua mente brilhante rumo ao sol do eterno.

[O azedume subia]

Já que as asas lhe traziam penas e os céus lhe encolhiam os ombros, João pousou a atenção na Terra e planeou torná-la a cortesã insaciável dos seus desejos agora rasteiros. Pensou-a como uma virgem que o aguardava com a impaciência já prostrada no ninho aberto das coxas, a noiva que desde o princípio dos tempos jazia abandonada nos degraus do altar onde implorava pela evolução, onde morreria se não fosse sua esposa.

Decidido, encarou a missão. Sem hesitações na vitória.
Inspirou o despeito a que o ar lhe cheirava. Coçou o ego para a comichão sangrar. Salivou vinagre na boca cerrada. Olhou o futuro estertor dos que ouviu ignorá-lo. E expirou uma estratégia.

Assim nasceu “A Verdade É Amarga”.

Blog de opinião.
Por João Castello Delmonte Fatalista.

[A acidez aterrava]



continua por si num próximo post perto de mim… ou algo assim.
dias bons para todos.


Andrew Bird – Spare-Ohs

43 impressões:

estrelita disse...

esta maneira de escrever é única.está muito lindo e fico a aguardar por mais

xá das 5 disse...

isto é....
isto é...
isto é muito bom!!!

estrelita disse...

esta canção também vai ficar lá no fundo?
é muito bonita e queria baixá-la como fiz com outras...obrigada

j.fortunado disse...

fantástico
li e reli e está como de costume:cheio de palavras vivas que me fazem segui-las até acabarem

fiquei apenas com o travo azedo de ter que esperar por mais... hehe
abraço,até breve

marta inês disse...

apesar de gostar muito das coisas tão doces que escreves, estou ansiosa para ler "a verdade é amarga".

os parágrafos finais ficaram excelentes, consegues sempre superar-te.

mas já sabes a minha opinião... excelente escolha na música, já agora.

beijo, até já.

Tulipa Branca disse...

liiiindo

(posta mais :P)

joni du lac disse...

ex-ce-len-te

milka disse...

gracias a dios y mi madre entiendo portugués cuando lo leo :D

el post está maravilloso

bikitos y mil más
cecilia

Ka disse...

Como sempre um texto fantástico!
Já sei que repitirei o que já foi aqui escrito mas tens uma forma de escrever divinal :)

Beijinho e uma excelente semana!

illusional dementia disse...

só posso dizer que se tirasse para aqui as partes de que gosto mais ia copiar todo o texto
foi um verdadeiro prazer
espero pelo próximo

leitora disse...

Francamente magnífico!
Óptima descoberta.

antónio bettencourt disse...

A sua escrita fascina de imediato e prefiro a prosa apenas porque é mais longa.
Boa semana

dragão da estrela disse...

MUITO BOM

voltarei

MsBambi disse...

Este texto não precisa de oráculos para dizerem que vai ser bom...

É mesmo bom!

É muito bom! :0)

Paulo F disse...

tah muito kurtido.......k vai acontecer ao tipo???
hahhahah........tassebem

Eduardo Jai disse...

Sim, estrelita, já a adicionei à playlist lá no fundo. Podes fazer download quando te apetecer.


Obrigado a todos pela presença e simpatia. Sabe bem.

Dias bons e noites quentes para todos.
:)

Laura disse...

Olá Eduardo...
Li, reli e deixo para quem tem tempo para ler mais...Neste momento estou de ressaca dos meus anos, xi, nem bebi champanhe, mas lá pelo blog foi todo o dia e assim, apenas peço que me leves a dar uma voltinha nesse barcão enorme, pelo rio acima, e me deixes olhar o céu, o sol e sentir calor, é que aqui estamos no mês mais frio do ano, brrrrrrrrrrrrrrrrrrr.
Beijinho a ti e escreve moço, coisas lindas...

Entre linhas... disse...

A magia das tuas palavras transportam o leitor para uma viagem harmoniosa e doce com a tua a simpatia das tuas doces palavras.
Bjs Zita

estrelita disse...

obrigada
já baixei a música :)

sydneyland disse...

last january we went to Andrew Bird´s concert at Sydney Festival Spiegeltent and since then...you gotta love his music...

great,great,great musician

have a good one
take care mate

raposo disse...

gostei muito de descobrir este blogue e espero voltar para ler mais

o meu amigo tem o dom da escrita
use-o bem e seja feliz
abraço

Maria Laura disse...

Deliciosa s�tira. E olha que h� muitos casos assim... num local perto de ti ou de mim, ou de todos os que por aqui andamos.

dj fumassa disse...

meu irmão
vc desazedou meus olhos com suas palavras e o bird me fez voar prá longe

valeu valeu
aquele abraço

dj fumassa disse...

dá mesmo prá baixar???
onde tá isso??
sou meio mágu :/

Maria del Sol disse...

A acutilância com que traçaste este retrato é admirável... assim como a música de Andrew Bird, cujo último concerto em Lisboa lamentavelmente perdi.

Beijinhos e uma boa semana :)

su disse...

Como é que se usam as palavras assim quando estamos perante o um João Fataliste em pessoa?!
Quero já o próximo episódio...que isto é de comer de chorar por mais! Espectacular!
E nem é preciso ir à procura das mangas papaias ali ao longe! ; )

Obrigado pelas dicas do bookCrossing!Quando me sobrar breve mais tempo vou "investigar"!

Deixei um desafio para ti lá na Teia.
Bejinhos.

Vanessa Lourenço disse...

Esta história eu conheço, talvez não a mesma, talvez com outro herói ou heroína, mas é do meu saber. Com ou sem herói, a escrita fala por si, e mesmo caindo em redundância, é muito muito boa de se ler...e "ouvir"...Um beijo.*

Teté disse...

Que história! Embora ficção parece ter um cunho muito real. Ou, pelo menos a mim, não me é totalmente estranha...

Fico à espera do próximo "capítulo". Ou já saiu em livro e esse é só um "cheirinho"?

Tem um BOM dia, Eduardo!

Maria P. disse...

Excelente.

Um bom dia, quente e com cores:)

Beijinho*

na estranja disse...

se estiver publicado também gostava que me indicasses onde ler mais

está excelente como tudo o que escreves aqui

mago perdido disse...

entrei e andei mais de uma hora perdido por aí
não perdi tempo
um dos melhores blogs que já visitei

só um pequeno reparo
porque tive que criar uma conta google para comentar? o meu hotmail costuma chegar

até breve,
mário saraiva

LB disse...

Realmente excelente. Um privilégio!

Abraço

cybermoon disse...

LOL achei doce esta história do joão amargo
aguardo o resto :D

Eduardo Jai disse...

DJ Fumassa:

(giro nickname)

sê bem-vindo e desculpa não ter conseguido ainda instalar uma mesa de som aqui, na box dos comentários...
:))

Por isso, vais ter que ir lá ao fundo da página (não é longe) e procurar as playlists. Aí, fazes download de tudo o que te apetecer do que tenho por lá. Abre, se quiseres, uma conta no IMEEM (é rápido e gratuito). Isso torna tudo mais fácil. ;)

Fica bem, diverte-te.


Teté e Na Estranja:

Não, não, longe disso. Tão longe que nem sequer é sonho (ou pesadelo).
Chamei-lhe assim porque é uma versão mais curta da original que poderá vir a ser bastante mais longa. Ainda não acabei a historieta. Depois, talvez a adicione a outras que ando a rabiscar sempre que as mãos me lembram que também servem para escrever.

Só isso...
Por puro prazer, sem pretensão alguma. Palavra de escuteiro.

Esperem aí...
Nunca fui escuteiro.

OK...
Juro.
:)


mago perdido:

Bem-vindo, perdido ou achado.
:)

A única moderação de comentários que tenho é a de não permitir comentários anónimos. Para evitar eventuais trapalhadas num sítio que nasceu com a excitação da tranquilidade.
Sinceramente não sabia que contas hotmail (ou yahoo, etc.) não permitiam comentário directo.

Obrigado pelas palavras e reparo.
Tenho que ver se é possível corrigir isso...

*
*

Um resto de dia BOM para vocês e todos os outros, 'impressionistas' ou não.

Inté,

Peace & Bliss

Vertigo disse...

Que texto.que escrita.pronto,lá vou ter eu que te linkar :)

Beijinhos

dj fumassa disse...

tem problema,não
já abri conta e baixei 4 :\
valeu

abraço
paz pró mundo

Gi disse...

Perdi-me aqui em pensamentos com o teu João Fatalista. Quando as expectativas são elevadas e não se concretizam a desilusão é maior.

Factor sorte e azar? Existe um futuro predestinbado ou somos nós com as nossas opções que o fazemos. João não terá dado tudo como certo? Lutou ou só se mostrou? Acho que ao longo da vida conheci alguns fatalistas que esperaram sempre que a sorte viesse ter com eles ...

Digno de reflexão o teu texto .

beijinhos

Luis Saraiva disse...

onde está o próximo??quero saber o que vai acontecer a este cromo hahaha
da tua escrita não preciso falar...
abrço

ps-só voltei na 6ª,fiquei mais uma semanita ;)

Gi disse...

Boa semana
deixo um beijinho em tons de azul

Amsilva disse...

surpreendente, no minimo!
as verdades são sempre azedas,
e nunca vão querer João Fatalista, seria demasiado incómodo...

na estranja disse...

"Por puro prazer, sem pretensão alguma. Palavra de escuteiro.
Esperem aí...
Nunca fui escuteiro.
OK...
Juro."

eu fui hahaha
FESTAS FELIZES

su disse...

Vim à procura de novidades...ainda à espera das sequelas do João fatalista.
Deixo-te um beijo grande.

Travessa dos bolos disse...

tem uma escrita maravilhosa