26/09/2007

Sonho cumprido

Quando era pequeno e as cores falavam nos meus olhos e todo o vento era música e cada brincadeira uma dança e cada palavra de amor um cabelo da tua trança ainda a ser tecida nos céus, sonhei que quando grande era feliz e nunca esperava muito pelo teu olhar.

Múm – Green Grass Of Tunnel


Os Múm são uma banda islandesa que acabou de editar (há dois dias) o seu último álbum “Go Go Smear The Poison Ivy”. Espreitem o vídeo, vale mesmo a pena. Mesmo.

As Amiina são quatro fadinhas, também islandesas, que vou ter o prazer de ver na próxima semana, na Casa da Música, no Porto. Costumam acompanhar os Sigur Rós em concertos e em estúdio. O seu álbum “Klurr” saiu em Março deste ano.

Apesar de ter pouco mais de 300 mil habitantes, a música da Lýðveldið Ísland está longe de ser só Björk. E eu agradeço: takk!


Amiina – Seoul

25/09/2007

Título? É tarde... Boa noite! Falamos amanhã?

E. E. Cummings - Surf: North Africa

While you and i have lips and voices which
are for kissing and to sing with
who cares if some oneeyed son of a bitch
invents an instrument to measure Spring with?


Enquanto tu e eu tivermos lábios e vozes que
servem para beijar e cantar
que importa que um qualquer limitado filho da mãe
invente um instrumento que sirva para medir a Primavera?

E. E. Cummings

Lavender Diamond - Open Your Heart

[Com um agradecimento especial ao Pedro Esteves e ao seu lado B que continua a oferecer excelentes horas de "novos sons para outros ouvidos". Programas que aconselho vivamente a quem gosta de Música, não lhe pôe etiquetas e procura o que de novo se vai criando por esse planeta. Com uma pitada de memórias, aqui e ali, do que vai ficando rodopiado no esquecimento dos dias. Um local diferente. Os sons são limpos: mergulhem à vontade. Se gostarem da temperatura da água, é claro...]

18/09/2007

Boa viagem

hoje
que não te posso adormecer
desejo que atravesses a noite
com o som das ondas
que roubei de um beijo nosso
e escondi na tua almofada

hoje
que estou longe
dei ao sol uma licença de sono
e deixei para despertares
a luz que trago nas mãos
desde que te afaguei os cabelos
na primeira manhã


[viaja sem cuidados
o nosso Abraço é seguro

espero-te no primeiro olhar do dia]



Sigur Rós - Glósóli

13/09/2007

Sucedâneo de um poema erótico encomendado

pediste-me para parar
tomar o pequeno-almoço
ver o tempo para hoje

pediste-me para
"sei lá... já sei!"
escrever um poema erótico


que ocupasse os dedos aí

que tinhas uma reunião de trabalho

que eu era mau

que não sabias porque falavas

que me querias no teu corpo

que eu era bom

que me amavas mas tinhas de ir

que não devia dizer-te "vai"

que não devia dizer-te "vem"

que eu era bom e mau

que nunca sabia esperar até logo

que a culpa era do duche da manhã

que eu não devia secar o teu corpo assim

que temos uma semana perto só para nós

que eu era muito mau e feio e

que NÃO devia fazer isso ao teu peito

que me batias se parasse

que eu era lindo


depois vi-te vestir
arranjei-te a saia e o cabelo
enrolaste na boca o meu sorriso
(guardei a tua saliva para pequeno-almoço)

e foste trabalhar


[aqui jaz o sucedâneo do teu pedido]


Muse - Invincible

06/09/2007

Quando o amor foi dormir

o turquesa e cereja dos céus
eram já meus

pedi para me fechares os olhos
no castanho dos teus



The Softlightes - Heart Made Of Sound

30/08/2007

Escolhas

Quis acabar com o embaraço público da minha preguiça - tantos dias exposta e aninhada em ausência – e tentei escolher um poema, um texto. Mas não me apetece ler para escolher.

Imaginei, depois, estender frases sobre um tema qualquer:

actual, surrealista, ancestral, futurista;
marítimo, idiota, legítimo, patriota;
exagerado, anedótico, moderado, caótico;
vivido, falado, sentido, pensado;
religioso, espiritual, curioso, banal;
desportivo, gastronómico, apelativo, económico;
fantástico, evitável, sarcástico, criticável;
inocente, internético, indecente, frenético;
fatalista, leve, moralista, breve;
profundo, aéreo, meditabundo, venéreo;
angélico, sexual, gaélico, musical;
arrogante, guerreiro, celebrante, derradeiro.

Mas não me apetece imaginar qual escolher.


Hoje – não me levem a mal - escolho o silêncio.

[final]



Norah Jones - Sunrise

25/08/2007

A Poesia e a Dona Prosa


Afastei-me de ti para ir buscar uma cerveja ao frigorífico e, de repente, senti um ataque do que me pareceu ser Poesia.
Era mais massivo que os habituais: os que apenas interrompem caminhos que ando ou coisas que faço, com maior ou menor tranquilidade.
Foi fulminante. Insinuou-se-me como uma baforada de ópio saída do vento e, no segundo a seguir, transformou-se num fogo de mil palavras em artifício. Brilhavam muito, todas com as letras a piscar, e acabaram a sereiar-me aos ouvidos: “Somos tuas, todas tuas… Que mãos bonitas, quentes! Vem!”

Mas algo não batia certo: tinha as mãos geladas da garrafa. Resisti e para me proteger, para não ficar preso, corri rápido para dentro.


e olhei-te
vi o teu sorriso
encostei o meu corpo ao teu
a música dos teus olhos é tão linda que comecei a dançar-te de novo


Depois de um novo sossegar, quando o pensamento se sacudiu outra vez percebi que não tinha sido a Poesia a atacar-me. Ela não se manifesta assim: fingida, vaidosa, orgulhosa do brilho rápido e certa de conquistas fáceis.
Era a Prosa, disfarçada.


tu, meu amor, tu és a Poesia
porque de ti não quero fugir
porque bebo com sede o sal da tua boca
porque fico com mais sede depois
porque somos um sabendo que somos dois
porque somos livres

[os amantes são livres porque são cativos apenas do que não tem grades]

nós, meu amor, nós somos a Poesia


Vá, vá, Dona Prosa, tente mais tarde.
Eu até simpatizo consigo mas porte-se bem.
Não seja chata...


Broken Social Scene - Pitter Patter Goes My Heart

21/08/2007

Com ou sem cerveja

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.


Joaquim Pessoa



The Kooks - Seaside

17/08/2007

Indiscrição

entrei pelos teus olhos
para ver como estavas

sacudi nuvens
lavei mentiras
arejei a confusão
sequei lágrimas
fiz café para o teu sono

deixei-te no coração
mais uma turquesa
para a tua colecção

e saí

[lembrei-me do dia
em que disseste
que não sabia cuidar de mim]

táxi!

siga a maresia
por favor


Coldplay - Fix You

14/08/2007

Sobre o post anterior...

Pois é, João Fortunado, como disse a Nela, são os sons que (me) seduzem e cativam nestas criações genuínas do Jorge de Sena. Mas não é só a musicalidade. Como neste caso, o meu preferido dos “Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena”:

III

URÂNIA

Purília emancivalva emergidanto,
imarculado e róseo, alviridente,
na azúrea juventil conquinomente
transcurva de aste o fido corpo tanto...

Tenras nadáguas que oculvivam quanto
palidiscuro, retradito e olente
é mínimo desfincta, repente,
rasga e sedente ao duro latipranto.

Adónica se esvolve na ambolia
de terso antena avante palpinado.
Fimbril, filível, viridorna, gia

em túlida mancia, vaivinado.
Transcorre uníflo e suspentreme o dia
noturno ao lia e luçardente ao cado.

Jorge de Sena



Este, e os irmãos, foram discutidos por académicos (incluindo matemáticos) e sujeitos a intermináveis horas de investigação por mentes iluminadíssimas. Foram atirados para inúmeras teses de mestrado e doutoramento. Colaram-lhes
variadas conclusões e lançaram mais ideias para... futuras conclusões. E só os deuses do fastio sabem o que lhes fizeram mais...
Não é que isso seja pecado: também gostei de brincar com 'lego', coleccionei cromos do Benfica, bandeirinhas de todos os países e excitei-me com a física quântica (e matrizes, adorava cálculo matricial... ah! as matrizes...).
Mas, que culpa tem o Jorge de Sena?
Pois. Nenhuma...

No "Colóquio sentimental em duas partes", continuo a descobrir/inventar muitos diálogos. E divirto-me.

Se algum é parecido com o que ele nos deixou, não sei; mas não me parece que Jorge de Sena ficasse triste com os meus eventuais adultérios... Se há promiscuidade saudável, é a da palavra livre - que cria sons, cores e imagens sempre diferentes - que não está sujeita ao peso dos conceitos e deixa mais leve a imaginação e os sentidos. Permitindo viagens diferentes. Não é assim que é, afinal, no país da Poesia?

Para mim, estes sons pintados por Jorge de Sena são bonitos de ler. S
empre que olho para eles. Só isso.


Um dia bom para todos.




Nick Cave - (Are You) The One That I've Been Waiting For?